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quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A malta de 43


No dia 10 de Agosto os benqueridos nascidos em 1943, respondendo ao apelo lançado pela comissão organizadora, eficientemente presidida pela  Maria Marques, tiveram o seu encontro na terra que, há setenta anos, os viu nascer.

A jornada de convívio e saudade começou com uma missa às 11 horas na igreja matriz, celebrada pelo Padre Alves, por alma dos que já partiram e de acção de graças pelos presentes.  

Para o repasto foi escolhida a Praia do Moinho, local ideal para a realização deste tipo de eventos. As frondosas sombras, o bom relvado e a praia, dotada de excepcional beleza natural, que a intervenção humana ajudou a melhorar, convidam mesmo ao convívio e à  amena cavaqueira, que a degustação de vários petiscos, regados com bom tinto potencia.

Nas entradas fomos brindados com a morcela, a chouriça e a farinheira assadas e não faltaram também os rissóis, os pastéis, os croquetes e as azeitonas, tudo acompanhado de bom pão e vinho tinto. Continuou-se com uma sopinha de legumes a que se seguiu o bacalhau com batata assada e bifinhos com cogumelos. À sobremesa  foi servida salada de fruta e arroz-doce. Se pensam que acabou aqui a comezaina, estão enganados! Quando a tarde já ia avançada e a noite já se adivinhava eis que surge o frango assado, as bifanas, a entremeada e o caldo verde. Ah, não sabiam! Pois, mas ainda não é tudo, quando se cantaram os parabéns, se partiu o bolo e se fizeram estalar a rolhas de espumante já o Sol havia desaparecido, tendo o convívio continuado pela noite dentro...

Foi um dia para mais tarde recordar, em que se reviveu o passado e se lembraram algumas das peripécias dos tempos de escola. Os laços de amizade saíram reforçados.

De realçar ainda foi o facto de a festa ter sido abrilhantada com cantares tradicionais executados pelos detentores de mais dotes artísticos e aplaudidos por todos. Estiveram mesmo presentes o adufe e as castanholas!

No essencial, a comida estava bem confeccionada, apenas alguns notaram que tanto o bacalhau como as batatas teriam sido beneficiados se tivessem permanecido um pouco mais de tempo no forno. A explicação para o sucedido parece ter que ver com algumas dificuldades de natureza técnico-logística.

                                                     Imagens captadas em Benquerença



















domingo, 17 de outubro de 2010

O homem da manta


Em tempos que já lá vão existiu na Benquerença (Penamacor) uma tradição que está hoje extinta, o homem da manta, que se manteve pelo menos até final da primeira metade do século XX.

Os rapazes só adquiriam o estatuto de verdadeiros homens quando iam às sortes, ou seja quando eram submetidos à inspecção médica avaliadora da robustez, que determinava a sua incorporação ou não no Serviço Militar, que então era obrigatório.

Assim, mandava a moral vigente que fosse vedada aos jovens a possibilidade de saírem à rua a partir de determinada hora da noite. Não tenho agora presente até que horas essa permanência era "permitida" mas seguramente nunca depois da meia-noite. Isto relativamente aos rapazes, visto que quanto às raparigas a questão nem se levantava, uma vez que nenhuma se afoitava a semelhante feito, que, a verificar-se sem a companhia dos pais, seria inexoravelmente reprovado por toda a comunidade que dele tiraria as mais infames ilações! As consequências de tal atitude poderiam tornar-se imprevisíveis, sendo certo que não faltaria o falatório a seu respeito e teria enorme  dificuldade em arranjar noivo!

Encoberto numa manta, com o fim de manter o anominato e munido de um grande cajado o nosso herói percorria, a altas horas da noite, as ruas da aldeia, acolitado por dois ou mais ajudantes que o seguiam à distância. Sempre que avistava  algum novato de imediato o  intimava, com voz disfarçada, a ir para o choço (tchôço), que o mesmo era dizer: menino toca a ir para a cama que não são horas de andar na rua. Por norma esta ordem era obedecida sem discussão, mas no caso de haver alguma resistência quase sempre a exibição do varapau era suficiente para o dissuadir. Só em situações muito excepcionais era necessário aplicar alguma arrochada (arrotchada) a quem se atrevesse a desobedecer. Por outro lado os ajudantes, embora à distância, mantinham-se atentos, não fosse o diabo tecê-las, já que, quando o jovem era de robustez comprovada, podia dar-se o caso de se virar o feitiço contra o feiticeiro!

Em boa verdade esta tradição funcionava assim como um recolher obrigatório que se impunha aos mais novos, que eram considerados como ainda incapazes de cuidar de si próprios. A intenção era protegê-los dos malefícios que poderiam advir da aquisição de hábitos noctívagos.

Esta prática era mais observada durante o Verão, nomeadamente quando se regressava de alguma descamisa, que porventura se prolongasse mais do que o previsível.

Este hábito, que hoje pode ser considerado primitivo, era na altura bem aceite pela sociedade que via nele uma forma de moralização dos costumes, visto que impedia os jovens de se desencaminharem, evitando que pudessem, por exemplo, frequentar tabernas pela noite dentro.  Até porque não nos podemos esquecer que o trabalho, no dia seguinte, começava bem cedo e era importante que se mantivesse todo o vigor físico.

Correndo o risco de ser apelidado de saudosista de passados obscuros, chego a pensar se não seria útil, com as devidas adaptações aos tempos actuais, que novos homens da manta surgissem para ver se conseguiam meter na linha certos meninos que para aí andam!

Pense nisso!

Quando nos voltarmos a encontrar podemos, se quiser, escalpelizar melhor este assunto.

Até lá e passe bem.

jogilbo






sábado, 28 de agosto de 2010

Oveiros


Se pensa que vou falar do oveiro-azulego, do oveiro-malacara ou do oveiro-rosado está enganado. O tema a abordar hoje não tem que ver com cavalos. Tão pouco vamos tratar de recipientes para colocar ovos, mas o assunto está naturalmente relacionado com eles. Do que se trata é de GENTE anónima, e muito trabalhadora, que não se poupou a esforços para garantir que o pão não faltasse aos filhos.
Lamentamo-nos muito hoje, e com razão, das dificuldades que enfrentam muitas famílias, mas esquecemo-nos ou ignoramos mesmo a vida dos nossos pais e avós que, na maioria dos casos, foi bem mais dura que aquela que hoje temos. 
Nos meios rurais da Beira Interior, em que o regime fundiário predominante era (e ainda é) o minifundio, as populações viviam  dos bens que a agricultura de subsistência, que praticavam, lhes fornecia. No caso particular da Benquerença a terra dava, a quem dela soubesse cuidar, o trigo, o milho, o centeio, a batata, o feijão e o azeite e também uma pinga de vinho, quase toda para consumo próprio. A existência de rebanhos de ovelhas e cabras (em menor quantidade) permitia alguma complementaridade a alguns na venda do queijo, da lã e mesmo de borregos e cabritos. Nesta aldeia, do concelho de Penamacor, situada na Cova da Beira, na margem esquerda da Ribeira da Meimoa, no sopé da Serra de Santa Marta, a maioria das famílias eram detentoras de pequenos terrenos de onde obtinham o necessário para (sobre)viver. Era raríssima a família que não possuía a sua própria casa, por mais modesta que fosse.
Vivia-se, portanto, com o que se produzia. Já o acesso a outros bens de consumo, de produção não local, era complicado, uma vez que o dinheiro circulante era um bem muito escasso. Muitas transações efectuavam-se em espécie: compravam-se duas ou três sardinhas com uma malga (cerca de um litro) de milho, com um litro de azeite comprava-se um litro de mel, ao Padre pagava-se a côngrua com um alqueire ou um meio de trigo, depedendo a medida das posses .... ...
Para melhor se poder fazer uma ideia do que estou a falar devem os caríssimos leitores imaginar-se nas décadas de quarenta e cinquenta do século passado.
A obtenção de algum dinheiro só se conseguia com a venda dos produtos que eram, quando eram, produzidos em excesso. Outros conseguiam ganhar uns cobres trabalhando, como jornaleiros ou ganhões, para os mais abastados.
Mas havia nessa altura na Benquerença para aí umas seis ou sete pessoas, a que hoje quero prestar a minha homenagem que, para conseguirem ganhar algum, se dedicavam a uma curiosa actividade mercantil. Eram os Oveiros. Da sua própria produção e de terceiros, a quem os compravam, levavam ovos para a Covilhã, onde tinham já clientes certos interessados na sua aquisição.
 Se a memória não me falha, todas as quintas-feiras acompanhavam, a pé, os burros ou machos em cujos alforges faziam transportar a preciosa carga. Apenas no regresso, já com os animais libertos do peso da mercadoria, viajavam montados. Saíam da Benquerença lá pelas três da manhã pelo (ainda hoje) chamado Caminho de Escarigo. Nunca soube rigorosamente o itinerário que seguiam mas tenho ideia que passavam pelos Três Povos, Peraboa e pela Quinta da França. Deslocavam-se quase sempre por caminhos a que só eufemisticamente se podia chamar de terra batida, dado que os mesmos eram cobertos de poeira no Verão e transformavam-se em lamaçais no Inverno.
 Uma vez chegados à Covilhã, depois de uma caminhada de cinco a seis horas, só interrompida para descanso e alimentação de pessoas e animais, deixavam estes na oficina do ferrador que existia próximo da Rua do Rodrigo, procedendo em seguida à distribuição dos produtos pelas casas do(a)s clientes.
A mercadoria transportada não se resumia apenas aos ovos. Além deles levavam também galinhas vivas e até mesmo borregos e cabritos, igualmente vivos, que eram mortos e esfolados em presença do cliente, podendo-se assim garantir a sua genuína qualidade. É perfeitamente compreensível que fossem estes os produtos comercializados, visto que todos eles  eram produzidos (criados) na Benquerença, o que já custa mais a entender é o facto de também levarem um outro cuja origem era de paragens bem distantes, o açúcar, pasme-se! Por que carga d'água entra ele nesta história? Poderá perguntar o leitor mais incauto. A sua utilização, nesse tempo, no meio rural era considerada um luxo!
Como certamente o prezado leitor não ignora, durante a segunda Guerra Mundial e nos anos que se  lhe seguiram, dada a escassez que grassava, procedeu-se ao racionamento de muitos produtos, tendo para o efeito sido criada a IGA - Intendência Geral dos Abastecimentos. Pois era, o açúcar era um deles!
A maioria das famílias na aldeia eram numerosas. A existência de casais com oito e mais filhos era normal na altura. Esta circunstância permitia-lhes a atribuição de senhas de racionamento para aquisição de bens de consumo em quantidade proporcional ao número de elementos do agregado familiar. Era isso que lhes permitia adquirir açúcar em quantidade muito superior à que consumiam e que depois vendiam aos oveiros, que por sua vez canalizavam, via candonga, para a Covilhã, onde os hábitos alimentares eram substancialmente diferentes.
Pelas informações que julgo ter, por cada quilo de açúcar tinha-se um lucro de um a dois tostões, o que constituía uma achega para a obtenção de alguma liquidez, necessária para a compra daqueles bens e serviços não suceptíveis de ser adquiridos pela troca directa.
Já na década de sessenta esta actividade, com a emigração massiva para a Europa, sobretudo para a França e Alemanha, foi desaparecendo até se extinguir por completo.

No caso de o leitor notar qualquer imprecisão naquilo que escrevo, o que naturalmente pode acontecer, já que considero falíveis as fontes que utilizo, fico-lhe muito grato se quiser fazer o favor de me alertar. Todos temos a ganhar com isso. Todos os contributos serão bem vindos.

Passe bem, cuide de si, trate-se e mantenha aquele sorriso, mesmo na adversidade. Não leve a vida tanto a sério! Quando calhar voltamo-nos a encontrar e vamos falar, sem formalidades, das coisas simples, logo boas, que a vida ainda tem. Até lá.

jogilbo